12 jun 2026 [email protected]
Mobilidade

Dados abertos de ônibus: o que 18 meses de GTFS revelam sobre atrasos

Análise de horários publicados pela prefeitura indica pior desempenho em corredores do Setor Bueno e região do Terminal Bandeiras. Dados abertos permitem, pela primeira vez, fiscalização independente do transporte coletivo.

Atualizado em 8 jun 2026

Ilustração de dados de mobilidade urbana em Goiânia

Em dezembro de 2024, a Prefeitura de Goiânia passou a publicar mensalmente arquivos GTFS (General Transit Feed Specification) com horários programados e, a partir de março de 2025, dados de posicionamento em tempo real de parte da frota. São 18 meses de informação que, analisados pelo Plano Direto, revelam padrões consistentes de atraso em corredores específicos e horários de pico.

O GTFS é um padrão internacional adotado por mais de 1.000 cidades para descrever redes de transporte público. Sua publicação em formato aberto é considerada boa prática de transparência e permite que pesquisadores, jornalistas e desenvolvedores criem ferramentas independentes de monitoramento — sem depender exclusivamente dos relatórios oficiais da concessionária.

Metodologia

Baixamos os 18 conjuntos mensais de dados disponíveis no portal de dados abertos municipal e cruzamos horários programados com registros de chegada em 120 pontos de parada estratégicos, selecionados para cobrir os 12 terminais e os cinco corredores com maior fluxo segundo o último diagnóstico do Plano de Mobilidade.

Consideramos "atraso significativo" quando o veículo chegou com mais de cinco minutos de diferença em relação ao horário programado, em pelo menos três dias da semana analisada. O critério é conservador — agências de transporte em São Paulo e Curitiba adotam limiares semelhantes em relatórios de qualidade.

Principais achados

Os corredores com pior desempenho consistente foram: Avenida T-63 (Setor Bueno), com atraso médio de 8,4 minutos no horário das 7h às 9h; região do Terminal Bandeiras, com 7,1 minutos; e o eixo Avenida Goiás–Rua 3 (Setor Central), com 6,8 minutos. À noite, após as 22h, a pontualidade melhora significativamente — o que sugere que congestionamento viário é fator determinante, e não apenas falha operacional.

Linhas que atendem bairros periféricos — como Residencial Goiânia 2, Jardim Guanabara e Cidade Jardim — apresentam outro problema: intervalos entre veículos superiores a 35 minutos em 40% dos horários de pico, mesmo com frequência programada de 15 a 20 minutos. Isso indica cancelamento de viagens ou quebra de viagens, prática que prejudica desproporcionalmente moradores que dependem exclusivamente do transporte coletivo.

Dados abertos não resolvem o problema do transporte, mas tornam o problema visível — e isso é pré-requisito para qualquer solução.

Lacunas nos dados

A publicação, embora bem-vinda, permanece incompleta. Posicionamento em tempo real cobre apenas 62% da frota ativa. Não há histórico consolidado de cancelamentos. E os metadados não incluem motivo de alteração de itinerário — informação essencial para distinguir obras viárias de falhas de gestão.

O Observatório de Mobilidade da UFG, em parecer técnico de abril, classificou a qualidade dos dados como "intermediária" no ranking nacional de capitais que publicam GTFS. Goiânia ficou à frente de Cuiabá e Porto Velho, mas atrás de Brasília, Curitiba e Belo Horizonte.

O que dizem os usuários

Para Adriana Souza, 36, auxiliar administrativa que percorre 90 minutos diários entre o Setor Campinas e o Setor Oeste, os números confirmam a experiência cotidiana. "O aplicativo mostra que o ônibus vai chegar em dez minutos. Passam vinte e nada. Perdi emprego no ano passado por atraso recorrente", relata.

A RMTC, concessionária do transporte coletivo, enviou nota em que atribui os atrasos a "obras de duplicação viária e aumento da frota de veículos particulares". A empresa afirmou que investiu R$ 12 milhões em renovação de frota em 2025, mas não apresentou dados de pontualidade auditáveis.

Recomendações

Com base na análise, o Plano Direto recomenda: publicação de dados de cancelamento; ampliação da cobertura de rastreamento para 100% da frota; e criação de painel público de indicadores de qualidade, atualizado semanalmente. A prefeitura informou que estuda parceria com universidades para estruturar o painel até o final de 2026.