Entre janeiro de 2024 e maio de 2026, a Prefeitura de Goiânia aprovou 47 projetos de parcelamento do solo que, somados, representam a criação de mais de 12.400 unidades habitacionais na periferia da capital. O dado foi levantado pelo Plano Direto a partir de camadas georreferenciadas disponíveis no geoportal municipal e confirmado com atas do Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU).
A concentração territorial é marcante: 62% das novas unidades estão localizadas em dois eixos — a região noroeste, ao longo da GO-070 em direção a Goianira, e a faixa sul, entre o Parque Atheneu e o prolongamento da Avenida Independência. Ambas as áreas eram, até uma década atrás, predominantemente rurais ou de baixa densidade.
O que os mapas mostram
Ao sobrepor as aprovações recentes com o zoneamento vigente do Plano Diretor Participativo (revisão de 2020), observa-se que a maior parte dos empreendimentos se enquadra em zonas de expansão urbana previstas pelo instrumento. Porém, em pelo menos oito casos, projetos foram aprovados em áreas classificadas como de transição ambiental ou com restrições de ocupação por proximidade a córregos e nascentes.
O engenheiro civil e professor da UFG, Dr. Henrique Almeida, que não participou do levantamento mas analisou os mapas a pedido desta reportagem, classificou o ritmo de aprovações como "incompatível com a capacidade instalada de infraestrutura". Segundo ele, "cada novo loteamento na periferia pressiona redes de esgoto, drenagem e transporte que já operam no limite em bairros consolidados".
A expansão não é o problema em si. O problema é expandir sem equipamentos públicos proporcionais — e sem mecanismos de controle social sobre o processo.
Infraestrutura em débito
Documentos de licitação consultados pelo Plano Direto indicam que apenas três dos 47 empreendimentos aprovados têm obras de drenagem associadas em cronograma executado pela prefeitura. Os demais condicionam a entrega de redes ao próprio loteador, conforme previsto na legislação municipal — mas sem fiscalização pública sistematizada em base aberta.
No transporte coletivo, a situação é ainda mais crítica. Das 12.400 unidades previstas, estima-se que menos de 20% estarão a até 500 metros de uma linha de ônibus com frequência mínima de 20 minutos nos horários de pico — critério adotado pelo Plano de Mobilidade Urbana de 2019. A Secretaria Municipal de Mobilidade não respondeu até a publicação desta matéria a um pedido de dados sobre extensão de linhas planejadas para as novas áreas.
Vozes do processo
Moradores do Residencial Goiânia Viva, loteamento entregue em 2023 na região noroeste, relatam alagamentos recorrentes durante a estação chuvosa. "Quando chove forte, a água desce do loteamento vizinho e invade nossas ruas", conta a professora Cláudia Mendes, 44, que se mudou para o bairro há um ano. "Prometeram pavimentação em 18 meses. Já se passaram dois anos."
Do lado dos incorporadores, a posição é de que o mercado responde a uma demanda reprimida por moradia de médio padrão. "Goiânia tem déficit habitacional estimado em 80 mil domicílios. Os loteamentos atendem famílias que não conseguem comprar no centro", afirma o síndico do Sindicato dos Loteadores de Goiás, em nota enviada à redação.
Próximos passos
O CDU tem audiência pública agendada para julho sobre a revisão de zoneamento na região sul. Organizações de moradores e o Ministério Público estadual acompanham o processo. O Plano Direto continuará monitorando as aprovações e publicará atualização trimestral dos dados no geoportal.