12 jun 2026 [email protected]
Agronegócio

Entre Goiânia e Anápolis, armazéns e cooperativas redefinem o uso do solo

A BR-060 e eixos vicinais concentram novos empreendimentos logísticos do agronegócio. Produtores locais debatem impacto sobre áreas de preservação e mananciais da bacia do Meia Ponte.

Atualizado em 10 jun 2026

Ilustração de armazéns e cooperativas no entorno de Goiânia

O corredor Goiânia–Anápolis, cortado pela BR-060 e por rodovias vicinais que ligam Trindade, Goianápolis e Senador Canedo, transformou-se nos últimos três anos em um dos polos logísticos mais dinâmicos do agronegócio goiano. Levantamento do Plano Direto identificou 23 novos armazéns, unidades de beneficiamento e centros de distribuição inaugurados ou em construção num raio de 40 km da capital.

O movimento responde à lógica de proximidade: Goiás é o maior produtor nacional de grãos, e armazenar e escoar a produção perto das rotas de exportação reduz custos. Mas a ocupação acelerada do solo rural levanta questões sobre conflitos com áreas de preservação permanente, pressão sobre pequenos produtores e aumento do tráfego de caminhões em vias não preparadas.

O mapa da expansão

Os empreendimentos se distribuem em três clusters principais. O primeiro, entre o Anel Viário e Trindade, abriga cooperativas de soja e milho com capacidade combinada superior a 500 mil toneladas. O segundo, ao longo da GO-330 em direção a Goianápolis, concentra silos de empresas integradoras de proteína animal. O terceiro, próximo ao entroncamento com a BR-153, inclui terminais intermodais em fase de licenciamento.

Dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) cruzados com registros do Cartório de Registro de Imóveis indicam que 14% das áreas ocupadas pelos novos empreendimentos eram, em 2018, classificadas como terras de agricultura familiar ou assentamentos rurais em processo de regularização.

Conflitos no campo

Em Goianápolis, produtores de hortaliças que abastecem a Ceasa de Goiânia relatam dificuldade para renovar contratos de arrendamento. "Os proprietários preferem vender para armazenadoras, que pagam mais", diz o agricultor José Ribeiro, 58, que cultiva tomate e pimentão há 25 anos na região. "Perdemos área produtiva e a cidade ganha caminhão."

A Cooperativa dos Produtores do Entorno Metropolitano (Copem) encaminhou ofício ao Governo de Goiás pedindo zoneamento específico para agricultura periurbana. O documento, obtido pelo Plano Direto via Lei de Acesso à Informação, ainda aguarda resposta há oito meses.

O agronegócio moderno precisa de logística, mas não pode expulsar a agricultura que alimenta a própria capital.

Licenciamento e transparência

Do total de 23 empreendimentos mapeados, 19 possuem licença ambiental emitida pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado. Os quatro restantes operam em regime de licença simplificada ou aguardam parecer. Porém, os estudos de impacto ambiental completos não estão disponíveis no portal de transparência estadual — apenas os números dos processos.

A bacia hidrográfica do Rio Meia Ponte, que abastece parte da região metropolitana, concentra três dos novos terminais. Técnicos do Comitê de Bacia alertaram, em reunião de março, para risco de contaminação por efluentes de lavagem de grãos caso não haja fiscalização ampliada.

Perspectivas

Para o economista rural Carlos Freitas, da Embrapa Cerrados, o fenômeno é "estrutural e irreversível" no médio prazo. "A logística vai continuar se aproximando das áreas produtivas. A questão é se haverá compensação ambiental e inclusão dos pequenos na cadeia", avalia.

O Plano Direto publicará, em agosto, série de mapas interativos com a evolução do uso do solo no entorno metropolitano, baseados em imagens de satélite e dados do Cadastro Ambiental Rural.